segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A História do Camarão

     Muitos amigos querem saber que história é essa de camarão a bordo, quando em viagem à Ilha do Contrabandista, no Rio Piratini em sua foz junto ao Canal São Gonçalo que liga a Lagoa Mirim à lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Digo Rio Grande do Sul por extenso porque me dói o ouvido ao escutar "no Rio Grande", referindo-se ao Estado. Assim, penso, lá do outro lado, no Nordeste, esse direito deve ser dado ao povo do Rio Grande do Norte. Além do mais, aqui a coisa se agrava devido a existência da cidade do Rio Grande. Fica uma confusão extraordinária. E o pior é que essa prática é mais usada pela imprensa gaucha!
     Pois como dizia, nessa viagem criou-se um "causo" (não sei quem mente mais: se pescador ou velejador) com relação ao camarão que levei.
     Chego a pensar que o "causo difamatório" foi criado por pura inveja dos amigos da flotilha!
     Por falar em flotilha devo citar que ela era formada pelos veleiros Gaudério do Ribeiro, Aragano do João Abraão, Spoker do Ventura, Patinho do Daniel e Macanudo desta vítima de comentários desairosos.
Da esquerda para a direita: veleiros Gaudério, Aragano, Spoker e Patinho, visto do Macanudo

     Saímos dia 7 de janeiro de 2012, rumo à Pelotas, RS com intuito de irmos até ao Sangradouro. Nesse dia atracamos no Veleiros Saldanha da Gama mas devido ao aumento da velocidade do vento e quadrante, preferimos voltar até o Arroio Pelotas, abrigando-nos numa curva.
Veleiros Saldanha da Gama (ao fundo, Gaudério, Patinho, Aragano e Macanudo

     No dia seguinte, chegamos à Ilha das Moças, onde pernoitamos devido ainda à intensidade do vento.
     À noitinha, depois de um gostoso chimarrão a bordo do Gaudério e bate-papo animado, me recolhi ao Macanudo descasquei  camarões e os  preparei ao molho com a intenção de serem o almoço do dia seguinte. 


Ilha das Moças (lado estreito)
     Nesse dia, chegamos à Ilha do Contrabandista, quando fizemos uma galinha assada (já não muito santa que também eu tinha levado) junto ao churrasco. 
     À noite, comemos o que restou do churrasco do meio-dia e fomos dormir.


Arroio do Contrabandista
     No outro dia, decidimos voltar. Navegamos até o Arroio Pelotas, quando fizemos o almoço a bordo do Aragano.
     Depois do almoço cada um de nós foi para seu barco para um descanso merecido.
     Ao chegar no Macanudo, deparei com um forte cheiro de gás.  Dei o alerta:
     -Pessoal! O botijão de gás está vazando. Esse vazamento apareceu assim, de repente!
     Cada um deu um palpite. Principalmente para que eu não acendesse chama nem causasse faísca!
     Fechei a válvula de regulagem do botijão, abri a gaiuta de proa e esperei que o arejamento desse cabo do mau-cheiro. Só depois de um pouco de raciocínio é que percebi que o mau- cheiro vinha de debaixo da mesinha  do fogão, da panela que eu havia preparado o camarão no molho!
     Só aí é que lembrei novamente do camarão, após 3 dias!
     Eram uns 2 quilos de camarões que fermentaram, e criaram uma espuma espessa que enchia a panela e fedia. Fedia muito!
     Meu erro foi ter tranquilizado o pessoal que não se tratava de vazamento de gás e sim do camarão fermentado.
     Essa é a verdadeira história do camarão. Mas contam que apareceram centenas de peixes mortos no Arroio Pelotas porque eu joguei o camarão n'água. Outros dizem que o IBAMA estava querendo autuar o autor do derramamento de produto tóxico, poluindo o meio-ambiente  e há os que contam que eu insistia a todo momento que provassem e comessem do meu camarão, que estava uma delícia! Dizem, que para não me chatear, recusavam com várias desculpas, chegando o João a dizer que tinha alergia!
     Fofocas à parte, o certo é que ao chegar em Rio Grande, apressei-me em colocar no meu barco um desodorizador de ambiente, que existe nele até hoje.







     

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A VOLTA DOS QUE NÃO CHEGARAM

                       A VOLTA DOS QUE NÃO CHEGARAM

Neste sábado passado, em visita ao meu antigo, querido e simpático porto, o Grupo de Escoteiros do Mar Almirante Abreu, encontrei o Renato Ventura a bordo do seu veleiro Travesso (acho que estava sesteando) e o Daniel agora dono de um Delta 17 (Tchê) recentemente adquirido e batizado de Maria Déta. Eu e o Daniel resolvemos viajar até Pelotas, RS, saindo domingo às 08:00 h. e retornando na segunda-feira. As previsões de tempo para esses dois dias eram extremamente favoráveis, tanto para a ida, como para a volta.
     Nos dois sites consultados as previsões eram parecidas; para domingo, ventos do S de 7 a 10 kts. e para a segunda-feira mesma velocidade mas do quadrante N a NW.
      Domingo, 8 horas da manhã, exatamente, o Maria Déta adentra a enseada do RGYC, enquanto eu vou saindo do box do Macanudo. No canal, aproamos a motor e içamos as mestras.

Farol de entrada do RGYC

Entrada da enseada do RGYC
O vento estava de W e pela prática, podia-se afirmar que estava em torno dos 10 nós. Chegando à ponta do Clube Regatas, começamos a cambar para o NE, atravessando a parte baixa, entre o Canal Miguel da Cunha e o farolete 20, em frente à Marambaia, quando desenrolamos a genoa, chegando a atingir o pico de 6,2 nós.
     Aos poucos notava-se que o vento aumentava de intensidade, com rajadas chegando a 15 ou 17 nós. 
     Nessa situação, após uns 15 minutos rizamos mestras na primeira forra e reduzindo à metade a genoa. 
     Com certeza, devido à perspectiva de aumento da intensidade do vento o bom senso mandava que retornássemos, pois não estávamos em competição e sim em singramento de passeio e já começava a ficar estressante. Conversamos e chegamos a comentar que iríamos até à boia 22, do Diamante e retornaríamos.

Coroa do Diamante  
Coroa do Diamante-Macanudo ao fundo


     As condições permaneceram estáveis e assim esquecemos nossa conversa sobre o retorno na boia 22. O vento aumentou mais ainda, quando passei para a segunda forra. O Maria Déta não tinha a segunda forra de rizos. 
     Estávamos na direção dos 330° e o vento de W a  WWS. O macanudo estava  adiante uns 100 metros. Eu olhava um pouco  à frente, outro pouco atrás. Assim, vi quando a genoa e a mestra "murcharam" no Maria Déta. Parecia que o Daniel tinha largado as escotas simultaneamente. Mas não. Imediatamente vi  o mastro quebrar-se, vindo tudo abaixo e dentro d'água. Eu já estava com a genoa enrolada e imediatamente baixei a mestra e acionei o motor. Voltei e tentei me aproximar do Maria Déta mas o mar estava muito revolto, com ondas acima de 1,5 metros e o vento muito intenso. Aí é que se vê que o velejador solitário diante das dificuldades fica quase inerte. No momento não encontramos jeito de amarrar o Macanudo na popa do Maria Déta. O Daniel, precisando de ajuda para recolher as velas e o mastro de dentro d'água e eu andando em círculos tentando aproar na popa do Maria Déta. Só depois, é que percebi que meu barco é equipado permanentemente com um cabo na proa e dois na popa: um a bombordo e outro a boreste. A saída seria eu ir à proa, pegar o cabo e trazê-lo por fora do barco e ficar com a outra ponta, enrolada para atirá-la pela popa. Não sei se nessas condições daria certo, mas valeria a pena tentar.
     Só depois de uns 30 minutos o Daniel consegue içar as velas e o mastro. A partir daí, retornamos a motor, procurando vir próximo à costa Oeste. 
     Quando estávamos perto da costa, e um pouco menos intenso o vento, medi com o anemômetro 41 km/h. mas posso assegurar que em seguida, tiveram rajadas próximo aos 50 km/h. No canal, na curva do Diamante, boia 22 as ondas eram em torno de 2 metros. Gaiuta fechada, aproado ao vento e motor à meia potência (meu motor é de 8 HP) a  água passava por cima do convés e se derramava no cockpit .
     Sei que este relato é singelo demais, visto por quem conhece histórias sobre travessias oceânicas. Tão singelo  que para pessoas simples como nós se transforma num feito homérico. Se as concepções ficarem  num meio termo me dou por satisfeito e com a consciência tranquila por ter sido fiel aos fatos.
     Mesmo com minha idade avançada, mesmo com adversidades que possam se apresentar,  muitas vezes de súbito, nas velejadas, o Macanudo não está à venda.